Prof. Morante
A verdade incomoda: Bets o jogo que virou crise

André Ferraz Ochoa, em coautoria com Camila Rodrigues de Paula, especialista em investimentos (C-Pro I/ANBIMA)
POR QUE ESTE TEMA IMPORTA PARA VOCÊ QUE ATUA EM ÁREAS DE CONTROLE NO VAREJO E NO MERCADO FINANCEIRO?
Primeiro vale uma contextualização.
As apostas online deixaram de ser um ruído de entretenimento para se tornarem um problema de risco financeiro e social em escala nacional. Jogos de azar e apostas online, popularizados pelas chamadas bets. Estima-se que entre janeiro e setembro de 2024, os danos associados às apostas e jogos de azar, no Brasil, geraram um custo social de R$ 38,8 bilhões.
O alerta mais grave não está apenas no tamanho do mercado, mas no tipo de dano que ele produz: endividamento, desorganização financeira, queda no consumo saudável, afastamento do trabalho, pressão sobre famílias e aumento do risco de dependência comportamental, adoecimento, suicídio e entrada no mundo do crime.
Estudos e levantamentos setoriais indicam que a atividade já disputa orçamento com consumo essencial, lazer, educação e investimento produtivo.
Famílias brasileiras apostaram em torno de R$ 240 bilhões em 2024, segundo estimativas do Banco Central do Brasil (Bacen);
Por causa do crescimento das Bets, varejo deixou de faturar R$ 103 bilhões em 2024, ficando abaixo da sua trajetória potencial;
1,8 milhão de brasileiros entraram em situação de inadimplência por conta das Bets;
Famílias de menor renda foram as que mais sentiram a inadimplência por causa das Bets, saindo de 26% de inadimplentes em jan/24 e chegando a aproximadamente 29% em dez/2024.
A ENGRENAGEM DO PROBLEMA: VÍCIO EM APOSTAS ONLINE BRASILEIROS JOGAM DE FORMA ARRISCADA
A lógica das bets é simples e agressiva: oferecer acesso instantâneo, promessa de ganho fácil e reforço contínuo por meio de aplicativos, bônus e marketing massivo, com artistas, influencers e esportistas. Esse modelo estimula comportamento repetitivo e reduz a percepção de risco, especialmente entre públicos mais vulneráveis, como jovens, pessoas endividadas e beneficiários de programas sociais.
Segundo o dossiê A Saúde dos brasileiros em jogo, aponta que cerca de 12,8 milhões de pessoas em situação de uso arriscado de jogos de apostas no Brasil, e 1,4 milhão já apresentam comportamento patológico. O vício em jogos virtuais, as chamadas “bets”, já possui Classificação Internacional de Doenças (CID): Transtorno do Jogo (CID-F63).
Os grupos mais vulneráveis são pessoas de menor renda e adolescentes, que, em tese, nem poderiam acessar jogos virtuais de aposta segundo a lei brasileira. Entre os que apostaram no último ano, 55% dos menores de 18 anos apresentaram comportamento de dependência, enquanto na população adulta esse índice é de 39%.
Estima-se que, a cada pessoa que desenvolve o Transtorno de Jogo, outras seis são afetadas, familiares, amigos e rede de apoio.
As principais consequências dos problemas com as apostas são:
Perda financeira e endividamento
Problemas de saúde física e mental
Violência doméstica
Aumento da criminalidade contra propriedades e pessoas
Rompimento de vínculo com família e redes de apoio
Risco aumentado de suicídio
Perda de emprego.
Famílias passam a acumular dívidas de maneira grave, trazendo dois principais efeitos: uma crise de saúde mental generalizada associada ao vício e uma desaceleração da economia devido à sobrecarga da máquina pública e canibalização dos setores da economia real.
O DINHEIRO QUE SAI DE UM LUGAR E FALTA EM OUTRO
O impacto econômico das bets não se resume ao apostador que perde. Ele aparece também na economia real. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), estimou que o varejo deixou de faturar cerca de R$ 103 bilhões em 2024, em razão do redirecionamento de recursos para apostas. Esse impacto pode ser sentido em diversos segmentos do varejo.
Essa perda representa uma transferência contínua de renda das famílias para plataformas de alto risco, com efeitos que se espalham por toda a cadeia econômica: menos consumo em alimentação, lazer, educação, vestuário e investimento produtivo.
O IMPACTO FINANCEIRO NAS FAMÍLIAS
O problema central das bets, segundo a especialista Camila Rodrigues de Paula, CPRO-I, é que o prejuízo costuma ser silencioso e cumulativo. Primeiro, a aposta parece pequena. Depois, vira tentativa de recuperação. Em seguida, transforma-se em sequência de perdas, crédito rotativo, atraso de contas e deterioração do orçamento familiar.
Essa dinâmica aparece com força em dados sobre beneficiários de programas sociais e consumidores de baixa renda. Em 2024, levantamento do Banco Central citado pela imprensa mostrou que beneficiários do Bolsa Família teriam gastado R$ 3 bilhões em bets em um único mês, um volume alarmante pela proporção frente ao benefício recebido.
A 8ª edição do Raio-X do Investidor Brasileiro (ANBIMA, 2024–2025) traz exatamente dados sobre bets: em 2024, 15% da população, cerca de 23 milhões de pessoas apostaram, 4 milhões delas consideravam apostas um investimento financeiro, 47% das pessoas que apostam, ou seja, quase metade, estão endividadas e cerca de 3 milhões apresentavam alta tendência ao vício.
As pessoas do gênero masculino representam dois terços dos apostadores em 2024. Na análise por faixa etária, a geração Z (16 a 28 anos) se destaca: 25% dessas pessoas usaram aplicativos de bets no ano. Depois deles, aparecem os millennials (29 a 43 anos), com 21%, e, mais longe, estão a geração X (44 a 63 anos) e os boomers (mais de 64 anos), com 6% e 2%, respectivamente.
Quanto ao estrato social, a classe D/E é a que menos aderiu às apostas em 2024, com fatia de 10%. Na classe C sobe para 17% e na A/B, para 16%.
A motivação econômica destacou-se como o principal determinante da intensidade das apostas, reforçando a percepção distorcida das bets como forma de complementação de renda.
Além disso, a ANBIMA em sua pesquisa mais recente: a 9ª edição do Raio-X, publicada em abril de 2026, mostra que 17% da população, cerca de 28 milhões de brasileiros, fez apostas online em 2025, contra 15% em 2024.
O EFEITO SOBRE EDUCAÇÃO E FUTURO
A relação entre apostas e educação também começou a aparecer com mais nitidez. Em 2025, estudos sobre o tema mostraram que o gasto com bets já interferia em matrícula, permanência e pagamento de mensalidades no ensino superior, sinalizando que o problema não é apenas de consumo, mas de interrupção de projeto de vida.
Para jovens adultos, o impacto é ainda mais sensível: o dinheiro perdido hoje representa atraso na formação, menor empregabilidade amanhã e maior chance de dependência financeira no futuro. Em termos de risco, isso cria um ciclo de vulnerabilidade difícil de romper.
O CUSTO PARA PREVENÇÃO DE PERDAS, GESTÃO DE RISCOS E MERCADO FINANCEIRO
Sob a ótica de Prevenção de Perdas, as bets funcionam como um vetor de erosão patrimonial. O dano não aparece como furto ou fraude tradicional, mas como uma transferência voluntária induzida por comportamento de risco, em que a pessoa perde controle progressivamente. Em situações mais graves, a perda de controle financeiro pode aumentar a exposição a comportamentos ilícitos, incluindo furtos, desvios de mercadorias, apropriação de numerário e fraudes.
Sob a ótica da gestão de riscos e do mercado financeiro, o tema das bets não pode ser tratado como um desvio comportamental isolado. Ele afeta diretamente a liquidez das famílias, pressiona a inadimplência, reduz a capacidade de consumo e compromete a previsibilidade econômica. Para empresas e instituições financeiras, isso significa maior exposição ao risco de crédito, piora da qualidade da carteira, aumento do custo de proteção e mais pressão sobre caixa, provisões e rentabilidade. Em outras palavras: o dinheiro perdido nas apostas não desaparece sozinho; ele reaparece como fragilidade financeira, retração econômica e custo adicional para todo o sistema.
PONTO DE VISTA
As bets não são apenas uma nova forma de entretenimento digital. Elas se consolidaram como um risco estrutural de perda financeira e social, com efeitos mensuráveis sobre orçamento doméstico, consumo, educação e saúde econômica do país.
Para nós que trabalhamos com prevenção de perdas, gestão de riscos ou no mercado financeiro, o recado é claro: ignorar esse fenômeno é aceitar que uma parte crescente da renda das famílias seja consumida por um modelo baseado em alta fricção, baixa previsibilidade e retorno estatisticamente desfavorável ao apostador. Isso pode levar a sérios problemas de saúde e, nos casos mais graves, aumentar a exposição a comportamentos ilícitos na tentativa de sustentar o ciclo de apostas.
As bets são só um vício individual ou já viraram um problema econômico coletivo?
CONHEÇA MAIS SOBRE A CAMILA
Este artigo foi construído em coautoria com Camila Rodrigues de Paula, especialista em investimentos (C-Pro I/ANBIMA), que contribuiu para a análise dos impactos financeiros das bets, especialmente na relação entre comportamento, endividamento, educação financeira e tomada de decisão.
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